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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Poema à boca fechada



Não direi:

Que o silêncio me sufoca e me amordaça,

Calado estou, calado ficarei,

Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,

Se represam,  cisternas de águas mortas,

Ácidas mágoas em limo transformadas,

Vasa de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:

Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,

Palavras que digam que não sei

Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos  se arrastam, nem só lamas

Nem só animais boiam, mortos, medos,

Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam

No negro poço de onde sobe dedos.

Só direi,

Crispadamente recolhido e mudo,

Que quem se cala quando me calei

Não poderá morrer sem dizer tudo.

                              José Saramago

3 comentários:

Anne Lieri disse...

Dora,escolha feliz nesse poema incrivel de Saramago!bjs,

Malu Silva disse...

Escolha perfeita, mas só se faz escolhas boas aqueles que conhecem a a alma dos poetas...
Abraços

Toninho disse...

Saramago sempre é bom de ler e voce fez otima escolha na partilha.
Abraços.

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