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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Passáro Cativo(Olavo Bilac)






O Pássaro Cativo
Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
             A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
             O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?
É que, crença, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
             Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:
             “Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
             Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
             Tenho frutos e flores,
             Sem precisar de ti! 

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
             Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
             Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
             Quero voar! voar! ... “
Estas cousas o pássaro diria,
             Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
             Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
             A porta da prisão... (Olavo Bilac)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Espinhos




Espinhos

 
Qual deles dói mais quando espeta?
Nem  é o da laranjeira
 Muito menos o da flor

 Espinho que mais incomoda
São os espinhos no caminho do amor

 Nem dói tanto do cacto espinhoso
Do limoeiro,nem comparação...
Espinho que espinha mesmo
É aquele que transpassa o coração.


(Dora Duarte)

sábado, 19 de novembro de 2016

PARTIDA



De repente fecho os olhos de mansinho...
Vou sumindo de tudo...Sinto-me leve como um pluma,
Nada ouço: nem barulhos de gente, nem de carros, nenhum ruído,
Nem discussão sobre política, futebol, ou religião .
Tudo é silêncio... sinto  algo hora morno em mim, hora frio.

Dou  passos macios,
 lentos, não sei aonde vou,
Nem a direção a seguir...
Uma experiência intrigante, porém gostosa,
Será assim quando partimos para bem longe?!
Flutuo ou voo? 
Ouço ao longe bem baixinho uma música relaxante,
E eu me entrego, numa entrega total
É hora de ir...
                   Dora Duarte 

domingo, 14 de agosto de 2016

Amor aos Pedaços



Amor aos pedaços
Despedaçado, fragmentado,
Explode por dentro
Deságua nas veias
Amo  líquido, liquidado, gota a gota,
 Na cor de carne, no suor transpirado’
Na alegria que pulsa na dor que repulsa
Escoa, ecoa, dentro dum Ser!
 Dora Duarte

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Quero voltar...





Quero voltar á minha terra
Quero voltar rever o meu povo
Sentir o cheiro do mata-pasto
Andar no meio do roçado de milho e feijão,
Deitar na sombra do cajueiro,
Abraçar e beijar a família e os amigos
Que lá deixei...
Ouvir eles, falar de mim
Pisar na areia fofa e branca
dos caminhos e estradas.
Sentir o cheiro do marmeleiro, gravatá...
Beber água doce das cacimbas, ou cisternas,
Tomar água de coco verde dos quintais vizinhos
Saborear a comida simples do tempo de infância
Comer tapioca com queijo de manteiga
inhame com manteiga de garrafa,
farofa de castanha de caju com o suco da polpa dele,.
Lambuzar-me nas frutas prediletas:
Manga espada, jaca, pinha, cajá...
Dormir na rede, vendo pela fresta da telha,
A lua brilhar no céu...
Quero voltar á minha terra querida...
Voltar, rever o meu povo,
Nem que seja por alguns dias...
Assim serei tão feliz quanto eu sou.

               (Dora Duarte)

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